sexta-feira, 17 de outubro de 2008
sábado, 11 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
Mar

Borrifa água salgada, enquanto a cabeça, erguida diante do vento e da tempestade, contempla o infinito negro e azul. Gelo e solidão. O grito das sirenes, em sua rocha distante, é como o sino da Fortuna: flui sem fim, sem rumo, na imensidão fria. Flutuar na superfície deste mar bravio não é diferente do que padecer em sua profundeza. Uma sepultura aberta, um túmulo que não conhece som algum. Silêncio. Tormenta. O trovão é mudo. Céu das areias, limite do mundo, fronteira da eternidade. Alerta, as mãos no leme e os olhos no horizonte. Além da pedra de Cila, além da Ultima Thüle, onde pilares maiores do que o sonho sustentam o firmamento; onde as estrelas colidem, onde os astros perseguem o negrume invisível; onde termina o universo, onde despenca a derradeira cascata do mundo; onde a vida condensa-se numa gota d'água. Lá navega o marinheiro, solitário. No casco, um rosto gasto, seios de uma ninfa desconhecida. O nome de sua nave, já esquecido. Estrela vespertina. Para sempre solitário, navega o marinheiro; para sempre, navega o marinheiro solitário.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
novamente

Passos claudicantes;
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Manca!
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Manca!
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Manca!
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Manca, Rei torto, e ressoa teu caminhar como o agouro de uma negra Estinfale. Suspira, Cavaleiro coxo, e exala teu sulfor como uma górgona petrificante. Teu tolo toque, ó Midas, transforma em pó o que te é caro. Tua alma gélida, besta inumana, não passa de cárcere próprio, de intransponível muralha entre teus queridos. De teu destino, grande infeliz, fazem troça as nornas: há um nó em teu fio!
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Dois!
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Três!
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Cortem-lhe a cabeça! - de novo, viúvo proscrito? Apaixona-te, acaso, pela sombra e pelo vento? De que é que fazes teu coração, nobre esfarrapado? De fogo, diz ao incauto, mas bem sabe que é de gelo. Incapaz! Pra que carregar mais este suplício, filho de Masoch? Parece-te tão belo e forte deixar as coisas pelo caminho? Enobrece este fiapo de espírito tentar ser a Bastilha, prestes a ser posta ao chão? É lá que deve morar, ó decomposto, até que se torne um agradável estúpido.
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Auto-engano. Falsa imagem. Ídolo. Por que adoras este bezerro de ouro? Encanta-te sempre pela miragem, beduíno, e torna-a uma verdade mentirosa, um espectro de possibilidades inalcançaveis: um ser em potencial, nunca um ente, sempre uma promessa que, sabe-se de antemão, jamais se cumprirá. Tens medo, Pigmalião? Constrói tua ruína, tua mentira, teu próprio auto-engano para que, assim, a desilusão pareça certa e teu sofrimento legitimo. De que adianta um Rei que inventa Rainhas?
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De que adianta um Rei que inventa a própria Coroa?
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Chão
Eu estarei aqui, quando nada mais restar além do pó. Eu estarei aqui, quando os irmãos matarem seus irmãos. Eu estarei aqui, quando o choro das mulheres sobrepujar o grito dos guerreiros. Eu não esmoecerei quando o ar sulfúrico for insuportável. Eu não desistirei quando todos virarem os olhos. Eu permanecerei, quando lhe for desagradável pensar minha presença.


Eu estarei aqui, quando tua lama inundar os pilares da Terra. Eu estarei aqui, quando houver medo de encarar meus olhos. Eu estarei aqui, quando recear ouvir minhas palavras. Eu estarei aqui, quando meus versos forem pesados para tuas costas delicadas. Eu permanecerei, após minha peste corroer tua alma. Eu resistirei, enquanto meu veneno contamina tua poesia. Eu resistirei, quando até mesmo tua sombra não possuir coragem para permanecer ao meu lado. Eu não desistirei, quando o vento deixar de sussurrar o meu nome. Eu não desistirei, quando minhas fontes secarem de poesia. Eu não desistirei, quando toda minha voz parecer uma mentira. Eu não desistirei.
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Eu estarei aqui.
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Eu permanecerei.
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Enraizado.
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Uma árvore estéril.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
triste

O sofredor é apenas um egoísta. Um artista malfadado, um escultor roto que vê em si mesmo sua obra de arte. A estética que apela ao corpo, o sublime que acalenta a alma confunde-se com o sentimento; mescla-se com o elemento do espírito - alimenta-se, o pobre diabo, de exterior e interior. Alegria, tristeza... estados etéreos e voláteis de uma arte que não se vê; se sente. Um jubiloso ignorante apenas deseja saborear as migalhas de uma obra invisível. Um tolo feliz quer somente apreciar o opus que se apresenta ao espírito: quer receber, quer derramar seu prazer em alegria ao que lhe dá o mundo. Não é assim para o que sofre. Este é um invejoso que deseja tudo para si. Deseja ser o espectador e se refastelar em sua amargura; deseja ser o artista, aquele que, com sensibilidade sem igual, pinta o mais melancólico dos quadros; deseja ser ainda, esse incansável egoísta, a própria arte - acredita que suas lágrimas são o mais puro estado da tristeza, e que mais nada resta em seu corpo cansado além do rancor e da desesperança. Acredita, o infeliz, estar consumido por completo. No mundo, por certo, não deve haver alguém mais inundado de dor e sofrimento.
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Tristeza alimenta-se de tristeza. Lágrimas movem-se pelo clamor da auto-piedade. Soluço tropeça no orgulho da mediocridade. Sentimento inferior, queima e queima. A alma é consumida, resta um corpo oco, sem vida, sem motivação, mergulhado no arquetípico sofrimento do incompreendido.
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Egoísta. Arte. Artista.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
véu

Há um véu. Uma parede de infinita neblina, feita da areia dos tempos. Ela sussurra. Almas me tomam pelas mãos, indicam caminhos e choramingam angústias, amores de um tempo imemorial. Elas vagam, ao meu lado, por um corredor de mármore, brilhante como os pilares do Éden. Meus passos ecoam, Toma forma, constroem seus mundos, flutuam em formosas esferas de saudade, de tudo aquilo que já foi.
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Minha alma sangra. Meus olhos não enxergam. Meu corpo claudica. O peso é insuportável. E devo caminhar, carga nas costas, curvado diante de uma estrada que perfura o horizonte, e acaba somente onde o mundo faz sua curva, onde meus pés não podem pisar, e minhas mãos não podem alcançar. Há um véu. Terrível círculo de fogo, angústia e sombra.
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Um véu. E angústia.
domingo, 22 de junho de 2008
Pleonástico

Rotos embriões, solidões. Botões de nefasto fausto que fatigam e fatiam minh'alma, espetam minha tranquila ilha alheia, alienado em mim mesmo, num morro de consciente consciência.
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Vadio, vagabundo, mentiroso jocoso, monstro rancoroso de vaidades. Efemeridades. Estética supérflua, dispensável, revogável. Perde a compostura, dissimula. Vadiobundo menticoso.
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Ai de mim, rei, curinga; frio invernal, irresponsabilidade descomunal, artificial outono dos tempos, vaus de nostalgia vanguardista, erros crassos de crassos erros. Buscas tolas. Rainha, espada, curinga. Ai do rei. O Rei está morto, viva o Rei! Que rei? Onde errei? Vidalonga breverrei.
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Que objetivo? Altivo, alívio. Sem foco. Culpa minha, afoito tolo afoito. Errei, ai meu rei, meu cavaleiro. Falhei. Fracassei. Levanto. Levantarei.
sábado, 21 de junho de 2008
fracasso
Eu falhei. O enxofre, deste campo de fracasso, me dá náuseas. Não me imaginava aí, cambaleante, torpe de surpresa e desgosto. Parece pouco, aos olhos do bem-aventurado, mas ele não sente o ácido corte no espírito. Cada passo é infinito, e agora caio no abismo da consciência. Sim, meu cavaleiro, és consciente do teu erro e da tua falha. Conhece teu inimigo, e conhece a ti mesmo - ainda assim, falhaste. O grilhão desta sapiência faz de ti ainda mais tolo, não faz? Sabia o que viria, ouvi os sussurros do tempo, e nada fiz para escapar. Inércia. Inerte, meu cavaleiro. Onde está tua força e tua coragem? Vocifera agora tua homília, e se prosta ainda mais neste lamaçal. Chafurdas nesta charneca apenas porque deseja. Levanta-te, meu cavaleiro, e enfrenta teus dragões. Falhei uma vez, e agora aí está a cicatriz. Morte ou Glória! Morte ou Glória....
Não falharei novamente.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Ampulheta
Nas névoas de um tempo perdido, pairam como distantes folhas as pequenas alegrias, fragilmente suspensas numa árvore surrada pelo vento implacável. Os grãos de areia escorrem pelo gelado vidro de uma ampulheta eterna; sempre vigilantes, sempre graves, as sementes do tempo são como pequenos lembretes, afiados e certeiros, da consciência onipresente, mãe terrível.
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Lembra-me.
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Vejo minha própria sombra projetada, dançando como um esqueleto macabro, nos vaus que passam e passam, tempo e tempo, dia e dia, século e século, jocosa, caçoando deste fardo atemporal, o ônus da responsabilidade. Irresponsável.
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riverrun, past Eve and Adam's.
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Ai, apoio que afunda na lama! Onde é que vou com estas pernas fracas? Não se pode vacilar, meu cavaleiro, diante da garganta deste Senhor tão guloso. Falhas no teste de fé, e de nada adiantará cair sobre os joelhos, prostrar-se na Terra, clamar pela piedade. Nega-lhe! Nega-lhe! Negam-lhe, estes terríveis profetas de destruição e desgosto. Paga pelo tu pecado, meu bom cavaleiro, e paga a penitência pelo que não cometeste.
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Mea culpa, mea maxima culpa.
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Não é minha culpa. Demônios de enxofre e podridão, araustos fétidos dos mais baixos planos. Monumentos de descontrole. Ai dos deuses, que vossa provação não seja tão pesado ônus. Falta-me ar, fôlego; falta-me estilo; falta-me métrica e paciência; falta-me força e coragem; falta-me ignorância, ainda que eu seja ignorante. Falta rima, poesia, beleza. Onde foram parar minhas noites de cristal?
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sed libera nos a malo.
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E caiu um grão, apenas. Uma minúscula idéia, um grão de areia. Torrencial. Único. Infinito. O tempo não passa. Alonga-se na lama negra, e acelera quando vislumbro uma miragem. Paciência. Não areia. Não pressão. Não tempo. Não consciência.
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Noites de Cristal, não mais.
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Amen.
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