sábado, 17 de maio de 2008

Vôo

Não saberia dizer-lhes, afinal, que tortuosa estrada é essa que se prostra diante de mim. Subjugo toda Terra, com um brado feroz que faz estremecer as Fundações, e com um toque, removo até mesmo as estrelas do Firmamento. Jurei, perante meu oráculo, não deixar Pedra sobre Pedra. Sob os auspícios das nove musas, travesti-me de um tipo poético, e julguei ser capaz de mover montanhas.
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Ledo engano, deste que pensa conhecer alguma coisa. Que força é a tua, meu Senhor, que não é capaz de conter teu próprio espírito?
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Não me basta percorrer o maravilhoso construido por meu próprio Dédalo; minha chama brilha mais alto, e, feito Ícaro, devo consumir minhas próprias asas.
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Vôo alto demais.
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Alto demais...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Uno


"Hayy disse-lhes que era da opinião deles, e admitiu ser necessário que eles permanecessem dentro dos limites das leis divinas e da observância externa, se abstivessem de aprofundar-se no que não era da sua conta, tivessem fé no que obscuramente entendiam e o aceitssem, evitassem a inovação e fantasias subjetivas, tomassem como modelo os pios ancestrais e abandonassem as idéias novas. Exortou-os a evitar os costumes das pessoas comuns que esquecem os caminhos da religião e aceitam o mundo [...] Esse era o único caminho para pessoas como eles, e se tentassem elevar-se acima dele às alturas da compreensão, o que possuíam seria perturbador: não conseguiriam alcançar o nível dos abençoados, mas vacilariam e cairiam".
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.Muhammad ibn 'Abd al-Malik ibn Tufayl, Hayy ibn Yaqdhan.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Apolo

Sou Apolo, e todo aquele que tocar meu Sol há de se queimar.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Istoría


Resplandece tua Majestade! Retumba tua dignidade, estremece os fundamentos teu brado, eleva-se aos Céus tua glória! Pela pena de Clio, que todos os reis ajoelhem-se ante a Sabedoria do tempo. Oráculos do Passado, mestres da vida, herdeiros da mais bela arte, orem por nós... Que semente de poesia, da mais fina flor, brota do ventre da filha de Zeus. Teu sopro é feito de sussurros, do pneuma dos renascidos, de anima dos que caíram, e agoram levantam-se na Glória da tua narrativa. Que tuas páginas infinitas não sejam maculadas pelo pecado dos falsos profetas, daqueles que não sentem o toque da tua mão pesada e feminina. Cegue, com teu esplendor, os olhos dos que não crêem no peso de teu julgamento. Inebrie teus acolitos, embebede com teu néctar os que se prostram diante de tua face incontemplável, diante da tua beleza que move o Sol e as mais Estrelas, que ofusca Beatriz. Que o mundo continue a girar em teu seio, no ritmo de teu ciclo e à mercê de tua vontade. E que minha palavra também seja abençoada, e que eu carregue, onde for, o testemunho da tua verdade, suave e fulminante. Que eu carregue teu martírio sem descanso. Que eu batize a alma no calor da tua História, profetiza da voz divina. Feliz de mim que ajoelho-me diante da mais bela das Moúses, e carrego a palavra de Clio...

sábado, 29 de março de 2008

Sussurro


Que é que ouço? Já não sei se são vozes amigas ou sussurros dos sepultos...

quinta-feira, 13 de março de 2008

ânsia


Agressores!
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Quem lhes concedeu o poder dos dois gládios, falsos profetas? Será que não podem sequer sentir o cheiro da vergonha que escorre por suas pernas? Tamanha soberba... falta-lhes, meus abutres, o bom senso de um ser humano. Que som nauseante, este do seu farfalhar pelo chão. Arrastam-se, arrastam-se, seguem esse túnel e julgam viver uma mentira verdade. Sentem prazer com essa luxúria, regada à irresponsabilidade e carniça.
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Mantenham vossa carcaça bem longe de mim!
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Falta-lhes a consciência. Será esse o motivo de vossa felicidade? Alegres aves de rapina, negras, voando com suas garras sujas, prontas para agarrar a próxima oportunidade de humilhação. Embriaguem-se, enquanto as formigas constroem as Pirâmides. Mas fiquem longe de mim, abutres carniceiros! Não me presto mais à vosso Banquete sinistro.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Longe


pater, si uis, transfer calicem istem a me.
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Pai, se o quiseres, afasta para longe de mim este Cálice. Eu não quero provar do teu veneno. Eu estou cansado, mesmo que ainda longe do Calvário. Minha uia crucis não desponta, mas não sou tão forte quanto o Filho de um Homem. Ainda sou humano, ainda peco, ainda sonho, ainda desejo. Ainda sou um menino, e quem é que vai ouvir minhas preces? Em que receptáculo repousarão minhas lágrimas?
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As coisas sempre são mais simples do que imagina-se. Problemas tem solução. Tudo é fácil. Tudo é fácil quando o cravo não lacera-lhe a carne. Tudo é simples quando o momento não se transforma numa Apoteóse, um Universo infinito de sombra e pessimismo. E, ainda que dure por um segundo, é por toda uma eternidade. Afinal, quem é que conta os minutos para a alma? Quem é que ampara um coração que se propõe, assim, inocentemente altruísta??
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Não é do repouso que descansa minha mente. Não é da felicidade que se compadece meu espírito. Falta-me a base, minha própria. Apenas o chão, aquele que não sedimentei quando, vorazmente, subi as Torres de uma certa maturidade. Não é de se levar a sério, afinal, uma explosão de choramingos tolos. Que são eles, senão, esta própria estrutura de força e coragem tentando, timidamente, descansar do peso titânico que suportam?
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Não há problema. Tudo está bem. Ainda que as palavras sejam ásperas, tudo está bem. Ainda que a Coroa de Espinhos perfure fundo, tudo está bem...
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Ainda que o ar me falte...
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tudo está bem.

domingo, 2 de março de 2008

Ventre


Encarrego-me do que não me convém. Mascaro-me com proezas, vícios e virtudes destes que me cercam, e, com garbo, caminho feito um vulto indistinto, uma disforme esperança de resposta e esclarecimento. Não encaro minha própria sina - está ali, meu auto-engano, como uma criança num ventre oco. Quase ouço trompetas angelicais anunciarem uma missão divina e gloriosa, apenas para que, em mim, não ecoe uma nota sequer de responsabilidade e iniciativa.
E como é que sei onde começa minha alma e onde termina a do outro?
Não sei acompanhar este circulo. Corro atrás da própria cauda... canto este desígnio e reflito sobre minha empatia ressonante: lá se vai a arrogância nebulando a covardia.
Que é que carrego, então, aqui comigo?
Diante de um mundo tão facilmente reconhecivel, não posso comprender a mim mesmo. Não ouso. Falta-me a coragem para olhar no fundo deste poço; falta-me capacidade para admitir que minha criança ainda chora.
Que é que eu faço, então, se ainda tenho medo do escuro?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Saber



Que é que vale conhecimento, se a alma não tem o sossego da plenitude? Acaso significa que, inebriado pelo néctar de tantas letras, seguiste um caminho ignorante? Aprendeste a filosofar com um Martelo, meu amigo.

Crepúsculo dos meus ídolos. Valha-me, impaciência! Como pesa essa própria soberba; e, num ato vilanesco, mascaro meu orgulho com uma falsa humildade garbosa. Peco em dobro, e, com a sinceridade de um falsário, acredito estar sendo exemplar. Que belo exemplo, afinal, um pássaro sem asas! Uma criança, trancafiada numa mente de engano.

Loucura, poesia. Mentira! Mentira! Auto-indulgência - não passo de um buraco de piedade e conformismo, um facho de intransigência. Meu hábito Franciscano está sujo...

Não. Não do erro, mas da crença. Não errei, apenas acreditei em minha inocência.

domingo, 16 de dezembro de 2007

criança


Eu queria ser criança. Queria ser criança de corpo e alma, queria brincar e imaginar um mundo só pra mim. Queria poder rir com inocência, poder arder com o desejo da curiosidade. Queria ser livre de correntes, livre da ambição e da responsabilidade, livre do peso da experiência. Queria ser criança, com a consciência de quem sente alegria por ela mesma, queria o pecado da ignorância, a benção de uma alma pura. Queria o suspiro virginal e o brado de humildade infantil. Queria, por Deus, essa alma repleta de poesia, de novidade, de fantasia, de brilho. Queria devolta meu tesouro, minha contemplação de um mundo simples, a precariedade fugaz de momentos que não duram mais do que cirandas e amores passageiros. Queria mergulhar nesse tempo que já foi, nesses aureos idos de uma outra vida. Queria, por toda a poesia, voltar a ser criança.